domingo, novembro 25, 2018

Resenha: Vox


Resultado de imagem para vox capa
Livro: Vox
Autora: Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Páginas: 320
Ano: 2018
Classificação: ♥♥♥♥♥
Skoob

Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.

Esse é só o começo...

 Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. ...mas não é o fim

Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.


~~~~

Uma mulher fala, em média, 20 mil palavras por dia. Agora imagina viver em um mundo onde as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. Se ultrapassar, leva um choque. Foi isso o que aconteceu nos Estados Unidos, um país onde sabemos que a democracia do século 21 é forte, mas que na distopia de Christina Dalcher foi transformada drasticamente pelo fundamentalismo religioso.

Nesse livro vemos a sociedade claustrofóbica que a Dra. Jane McClellan vive. As mulheres perderam todos os seus direitos e a sua única função é cuidar da casa, dos filhos e do marido. As crianças do sexo feminino não aprendem nem a ler nem a escrever na escola mais, mas sim a cozinhar e outros afazeres domésticos. Todas as mulheres, incluindo as crianças, usam braceletes no pulso que contam as suas palavras. Nao são pulseiras, é tortura.


Vox é narrado em primeira pessoa pela Jean, e isso é sensacional. A gente tem um contato tao direto com a realidade dela que as vezes parece que estamos dentro daquela história – o que, na verdade, é assustador. Jean tem que lidar com o seu filho mais novo, Steve, que está tendo – gradativamente – seus pensamentos moldados pela educação religiosa e manipuladora que ensina que somente os homens devem ter voz. É horrível. As vezes dá vontade de esganar o Steve, mas no fundo o sentimento de que não é culpa dele preenche os nossos corações e começamos a sentir pena.

Além do Steve, temos também a filha mais nova de Jean. Jean era cientista especializada em neurolinguística, então ela sabe muito bem sobre a importância da fala e em como isso pode afetar no desenvolvimento infantil, causando um impacto enorme no futuro de sua filha. A gente percebe o quanto a Jean está desesperada.

No meio da história também temos flashbacks de quando a Jean tinha voz. Ela se culpa por não ter escutado a sua amiga feminista Jackie. Jackie ia a passeatas, eventos, fazia cartazes, dava entrevistas e tentava ao máximo avisar o que estava prestes a acontecer. Jean, por sua vez, achava isso tudo um exagero, e quando percebeu o grave problema já era tarde demais: as mulheres estavam perdendo os seus empregos, tinham suas contas no banco cancelados e os passaportes revogados.

Minha culpa comecou a duas décadas atrás, a primeira vez que deixei de votar, as várias vezes em que eu disse a Jackie que estava ocupada demais para ir às marchas ou para fazer cartazes ou para ligar para um congressista.

Esse livro trouxe literalmente um misto de sensações. Tive medo, raiva e esperança, tudo misturado dentro de uma montanha-russa desgovernada. A narrativa é fluída e frenética e o livro pode ser devorado em poucos dias. A curiosidade e o receio ao virar cada página está presente conforme os capítulos voam. Não tinha ideia do que iria acontecer, achei imprevisível e incrível a maneira que os acontecimentos ocorreram.

Talvez tenha sido isso que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode muar tanto até ficar irreconhecível. É fácil, penso.

Eu poderia dizer tantas outras coisas aqui como, por exemplo, palavras e frases hediondas que a Jean terá que ouvir durante a história. Entretanto, não consigo descrever essas cenas aqui, sinto apenas nojo. Além do mais, acho que se eu escrevesse essas cenas na resenha, perderia um pouco da ação caso alguém queira ler essa história. Por isso digo: vá se aventurar por ela, porém, com cautela e com o saber de que essa história é pesada.

Vox me ensinou muita coisa e é um livro que eu vou levar sempre comigo, não somente pelo contexto, mas também pela história envolvente e pela escrita intensa. É um livro excepcional. A única coisa que eu mudaria seria o final, pois eu achei bem corrido. Eu não iria ligar caso o livro tivesse 500 páginas ao invés de 300. Contudo, isso é o de menos, pois não é algo que tira a excentricidade do livro.

Vox sufoca. Sufoca porque sabemos que isso é uma distopia, mas que certas coisas acontecem nos dias de hoje e podem acontecer no futuro. Entretanto, ao mesmo tempo, Vox traz uma grande reflexão enquanto o papel da mulher na sociedade, sobre a importância de ter uma voz e opinar em relação a um governo (principalmente um que demonstra sinais de autoritarismo) e sobre a importância de diferenciar o Estado e a religião. Ah, e tem um episódio sobre notícias falsa e manipulação da massa, acho que qualquer semelhança não é coincidência (quem me dera se fosse).

Uma nota pessoal: "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos" - Simone de Beauvoir. Eu não ficaria surpresa caso uma figura extremista dissesse as coisas horrendas que eu li nessa história. Não ficaria surpresa pois gradativamente o extremismo toma conta em certos lugares do planeta, discursos de ódio com palavras cheias de segundas intenções que cegam as pessoas, estas que acreditam que o extremismo e que a religião são as últimas opções. Se você lembrou de alguém, eu sinto muito. Eu também lembrei.

Enfim, esse livro é incrível e creio que todos devem ler. Cinco estrelas e favoritado!

10 comentários:

  1. Oi Ana, quanto tempo! 🤗
    Eu estou doidinha pra ler esse livro! Adoro distopias, e esse tema é super atual e relevante!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Carol! Quanto tempo mesmo, sumi bastante haha
      Espero que você leia e goste, é um livro super importante nos dias de hoje!
      Beijos

      Excluir
  2. Que legal ler sua opinião. Muitas pessoas estão falando que é bom. Estou louca para ler!

    www.vivendosentimentos.com.br

    ResponderExcluir
  3. Oi Ana, tudo bem? Esse livro deve dar um aperto no peito, né.. pelo menos é o que eu imagino que vou sentir quando lê-lo. Sempre me sinto assim quando os personagens não podem se expressar ou são encarcerados de alguma forma, mas achei a premissa do livro muito interessante.
    Beijos, Adri
    Espiral de Livros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Adri! Tudo certinho e você?
      Olha, ele dá um apertão mesmo, mas por mais que seja uma leitura difícil, ele nos ensina muita coisa! Espero que goste :)
      Beijos

      Excluir
  4. Adoro distopias e fiquei mega interessada no livro! Parece ser bem legal mesmo. Mesmo que gere um incômodo, acredito que algumas leituras são boas justamente pra nos tirar do conforto!


    Beijo,
    www.vitaminatrendy.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É verdade, distopias geralmente dá esse efeito de desconforto, mas é bom sair da nossa zona de comodidade um pouco! Espero que leia e que goste :)
      Beijos!

      Excluir
  5. Esse livro está sendo tão comentado, vejo muitas fotos dele e não sabia que era uma distopia. Já fiquei curiosa para saber mais, creio que acabarei lendo ele.
    Beijos
    https://recolhendopalavras.blogspot.com/

    ResponderExcluir

Our Constellations - © 2015. Todos os direitos reservados
Template desenvolvido por Fancy Designs
Tecnologia do Blogger| Créditos: Garota no Mundo Html, Jackie Dream e Enjoy Things| △Voltar ao Topo△
imagem-logo