Título: Um Amor Incômodo
Autora: Elena Ferrante
Páginas: 176
Editora: Intrínseca
Ano: 2017
Skoob
Sinopse: Aos quarenta e cinco anos, Delia retorna a sua cidade natal, Nápoles, na Itália, para enterrar a mãe, Amalia, encontrada morta numa praia em circunstâncias suspeitas: a humilde costureira, que se acostumou a esconder a beleza com peças simples e sem graça, usava nada além de um sutiã caro no momento da morte.
Revelações perturbadoras a respeito dos últimos dias de Amalia impelem Delia a descobrir a verdade por trás do trágico acontecimento. Avançando pelas ruas caóticas e sufocantes de sua infância, a filha vai confrontar os três homens que figuraram de forma proeminente no passado de sua mãe: o irmão irascível de Amalia, conhecido por lançar insultos indistintamente a conhecidos e estranhos; o ex-marido, pai de Delia, um pintor medíocre que não se importava em desrespeitar a esposa em público; e Caserta, uma figura sombria e lasciva, cujo casamento nunca o impediu de cortejar outras mulheres.
Na mistura desorientadora de fantasia e realidade suscitada pelas emoções que vêm à tona dessa investigação, Delia se vê obrigada a reviver um passado cuja crueza ganha contornos vívidos na prosa elegante de Elena Ferrante.
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Delia retorna a Nápoles, sua cidade natal, para enterrar a sua mãe, Amália, que foi encontrada morta em uma praia, usando somente um sutiã. Delia e Amália não tinham uma relação afetiva muito boa, e é em meio a negatividades que Delia descobre e reconstrói os últimos passos de sua mãe. Em uma tentativa de descobrir o que realmente aconteceu com a sua progenitora, Delia refaz as últimas horas de Amália na Terra e, consequentemente, descobre muitos segredos que a sua mãe omitia.
Em uma narrativa muito crua, Elena Ferrante nos proporciona um relacionamento nada saudável entre mãe e filha. Delia tem um desprezo pela sua mãe e detesta o seu comportamento. Entretanto, no meio da obra nós percebemos uma mudança de conduta, e nos damos conta de que as vezes não temos como fugir dos nossos laços familiares. Delia percebe isso também e, por mais que não goste muito da ideia, admite que tem similaridades com a sua mãe. Eu gostei muito desses conflitos, me identifiquei bastante com as desavenças e com a relação familiar de Delia.
Há outros três personagens importantíssimos na história, todos eles homens. Temos o tio Fellipo, irmão de Amália; o pai de Delia, um homem completamente machista e agressivo; e Caseta, amigo do tio Fellipo e do pai de Delia. O progenitor de Delia era totalmente repugnante. Além de ser machista, ele era agressivo e batia em Amália. Aliás, ele fazia inúmeras agressões psicológicas também. Esses encontros de Delia com esses personagens masculinos são de grande importância na história pois são o passado de Delia e Amália. Muitos pensamentos que a nossa protagonista narra na história são por conta de coisas que aconteceram no remoto e que estão em seu subconsciente, então aos poucos percebemos a repressão e o patriarcado, que ainda é muito forte, oprimindo as mulheres e dizendo o que elas devem fazer e quem devem ser. E ISSO É HORRÍVEL.
A narrativa de Elena Ferrante é fragmentada, ou seja, há uma mistura entre o passado e o presente muito frequente durante a história, e isso pode confundir o leitor. A autora usa do fluxo da consciência e nos puxa para dentro da mente da protagonista, de modo que nos aproximamos mais dos ocorridos. Isso é bem incômodo, principalmente nas cenas onde o machismo é escancarado. Esse fluxo de consciência pode deixar o leitor um pouco confuso – principalmente para quem não está acostumado com o estilo. Porém, ao longo das páginas nos apegamos com a escrita dela e nos acostumamos (digo isso por experiência própria, pois foi o primeiro livro da autora que li). Consegui entender perfeitamente o lado da Delia, assim como consegui ter empatia pela Amália.
Eu estava tão decidida a me tornar diferente dela que perdia uma a uma as razões para me parecer com ela.
Esse foi o primeiro livro da Elena Ferrante que eu li e, coincidentemente, foi o primeiro livro escrito por ela também. Geralmente não costumam recomendar esse livro para uma primeira leitura, mas eu me arrisquei. Não vou dizer que foi o melhor livro da minha vida, estaria enganando a todos, mas eu gostei dele e pretendo dar outras chances para a autora. Nesse livro ela abordou muitos temas importantes, então imagino que nos outros não será diferente. Além disso, adorei conhecer essa escritora, consegui captar um pouco da cultura italiana – por mais que os costumes estivessem pelas entrelinhas.
Não sei se eu indicaria para leitores de primeira viagem, muitos podem não gostar por não ser um livro linear e por ser muito descritivo. É um livro que tem ressalvas e pode se tornar uma leitura um pouco densa, mesmo tendo apenas 176 páginas. Ademais, não posso deixar de dizer que esse livro é excelente e me trouxe várias reflexões, principalmente sobre relações familiares. Quem gosta desse assunto é uma boa dica.